domingo, 21 de maio de 2017

Pai


Meu pai é ignorante.
Não só intelectual, é da vida também.
No máximo, os anos fizeram dele um ser mais dócil e paciente.
Mas para por aí.
Meu pai tem 52 anos, por julho terá 53.
5 décadas não foram o suficiente para fazê-lo entender que não se enriquece rápido e fácil.
A não ser na loteria.
Meu pai e minha mãe separaram-se quando tinha 5 anos.
O advogado perguntou e eu respondi:
- Com a minha mãe.
Depois disso pouco vi meu pai.
Hoje reparo e vejo nele quase tudo que não quero ser.
Mas não é de todo tão mau assim.
Se não é pelo erro, como se enxerga o acerto?
Reclamo, rosno, me doo
Mas não sei até onde gostaria que fosse diferente.
Sei lá.
Talvez se criando assim, desse jeito mesmo, meio torto, meio errado
A gente se torna mais gente.
Aquele pai que não tive, é pena, nunca me faltará
Pois coisas que nunca existiram não plantam apego em terra de ninguém.
À minha mãe, deixo um abraço.
Ao meu pai, um beijo
E uma mordida sem dente.
Que não venhas a se culpar 
A vida é mesmo assim
Uma permissão para se fazer ausente.
 

sábado, 22 de abril de 2017

C'est la vie, cherry



a vida, essa vida, é mais que a vida, muito mais

a vida, essa que gruda nos olhos e só a morte faz soltar

é mais que ela mesmo poderia se imaginar ser e transcende a morte em 10 minutos

a vida não se imagina, como a gente faz

a vida é e não a concebemos

da mesma forma que não concebemos a mente

e no entanto tudo é pessoal

pois bem no fim, somos delimitados pelas paredes da carne

e o mundo é senão, o contorno de um suspiro capturado pelos sentidos

que o tempo faz também morrer

não podemos estar um passo adiante da própria visão

se não fecharmos os olhos de vez em quando

por isso talvez a morte seja uma verdade mais madura.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Uma poesia sem nome e apenas isso

Ei
Há de ter visto aquela mulher ontem
No terminal.
Chorava aberta,
Uma chaga na alma

Chorava, reclamava,lamentava
Dizia:
- Mal, esse maldito mal.

Esse grito, lamento, reverbera
A multidão corre, como sinal
Corre como sempre, corre como nunca
Não dá ouvidos
A multidão também mata

Entendo.
Quem há de admitir o mal.
Aceitar o mal...

(São esses seres exclusos das trevas?)

Uma multidão por mim corre
Corre como sempre, corre como nunca
São dois fluxos de direções contrárias.
Borrões sem almas?


Me levanto.

Ora
Uma parte desse mal todo cabe a mim.

Eu, maldito eu.

Quantos já feri?
Quantos já matei?
Quantas chagas, cadáveres
Almas.
Silenciadas a um fim de tarde
Repensando tudo e se sentindo mal

Perdão.

E a senhora que antes chorava,
Nem feliz ou triste está
Ela pensa pouco agora,
Carrega uma sacola (essa eterna sacola atada em nossas mãos).
Carrega e trilha seu caminho.
Caminho já dito e perscrutado
 por quem antes fora senhora com sacola na mão.

A senhora é velha
E tem de ser
O moço é jovem
Quis ser velho
O adulto quer ser criança

Mais que nunca.
Mas adulto só pode ser adulto
E a criança é criança
Hoje e amanhã
A criança sorri!

O mundo é bom?
Pergunta pequenino.
O mundo é bom em partes
E talvez um velho ao fundo pragueje
Ora, corte os podres e engula o fruto.

Coma, sobreviva.
O amanhã te chama.
E da janela deste apartamento imundo,
O sol nem nasce mais.
Nasce a luz, que cambaleia e sugere  concreto.
Dá-se o cinza e teu coração dói.
Teu coração dói o vazio.
Inflama o nada.
E já brota pela manhã,
O mal em tua alma.

Você saí,  tem medo.
Se torna defensivo e instável.
Essa pantera suburbana que és.
É sinal desse mundo cão que vives.
Caça caça e caçador.
Quem há de ter pudor na selva? 

A raiva da raiva.
É o complexo da cidade cinza.
A cidade, a metrópole, o trabalho, a indústria, a fumaça, o cigarro, a boca e o bate boca.
São sintomas.
O ciclo que sustenta seja lá o que te causa desamor.

Tens raiva e dói
Pois encerras mais um coração raivoso da cidade cinza.

Podia ser budista ou pacifista.
Lesse Gandhi
A Índia é longe.
Muito longe.
Que de tão longe dói.

Moras em São Paulo,
E quando vais à praia.
Vê o Atlântico ao pé da orla.
E se eu o atravessasse...
Ah sim,
Com certeza
Chegaria à Africa.
Mas não vai.
Não vai.

Formula desculpas.
Mas tu que bem sabes,
Todos nós nascemos com uma tranca na alma,
Abrir ou fechá-la é apenas sinal de quem optamos por ser.

Te encontrei hoje de manhã, lá na padaria!
Com uma cara abatida
Por isso não lhe contei essa história

Ontem alguém me assaltou.
Um ladrão desses...
Sem nome, talvez sem mãe.
Apontou a arma em minha cabeça,
E quando foi me dizer essas coisas que ladrão diz
Chorou e me abraçou.
Meu coração batia mais do que devia,
Apenas porque corações batem quando somos assaltados.
Bem no fim,
Éramos dois a chorar.

Enquanto chorava,
Senhor Deus baixou luz na escuridão de meus olhos fechados
Foi coisa de menos de segundo sabe...
Mas naquele instante entendi o universo
Percebi que eu sou ele e ele é eu,
Que sou dona de casa que é mulher que apanha que foi marido que bate fugindo de um pai.

Que lhe deixou mais do que cicatrizes.

Vi as coisas feias e as coisas belas
E que as coisas feias são apenas degraus para as coisas belas.

Por isso hoje quando te vi lá na padaria,
Apenas levantei a mão na frente de um sorriso mal disposto.
Entendi o universo!

E se eu gritasse, me ouviriam?
E se eu gemesse, me acudiriam?

Esse grito sem voz
Castrado há muito,
Nas raízes da sociedade,
Ainda há de enlouquecer muita gente.