sábado, 9 de setembro de 2017

IRA




Eu só queria sair daqui, ir pra praia
Fumar um cigarro, tomar uma cerveja
Mas eu não tenho dinheiro pra nenhuma dessas duas coisas
Eu só queria sair desse lugar, me livrar desse barraco
Que não permite intimidade, pouco conforto
Ratos no assoalho e banheiro imundo
Onde estranhos passam o dia todo
Eu só queria sair daqui
Dizer um adeus pro meu pai
E pra essa relação complicada
Essa paternidade porcamente exercida              
Esse homem já velho, já gasto
Infeliz em suas escolhas
Mas o aluguel é caro
Elimina qualquer ideia de economia, poupança
Queria ser como meus amigos
Uma bolada gorda da herança da vó
Mesada na conta todo fim de mês
Pais importantes, formados, acadêmicos
Família de títulos
Venho de gente pobre
Sem nome, sem título
A origem assombra o destino
O corpo e a mente pedem
Castigo
Por crimes não cometidos
E a química cerebral é mais forte até que ponto
Os limiares da sanidade são válidos até que ponto
As doenças destroem até que ponto
E o livre-arbítrio, alguma vez contou
Alguma vez existiu?
Ou  a hierarquia fala mais forte,
Ou as relações de poderes e instituições milenares são paredões intransponíveis
Contra o livre-arbítrio do jovem bem aventurado
A doçura, o gênio, a inventividade contam quando se nasceu pobre favelado?
Ou pobre rural
Ou pobre urbano medieval
Ou pobre sempre a mesma coisa
É essa mescla complexa,
Espelho do comportamento humano
E já nos fizeram acreditar que tudo isso não tem jeito não
São condições além
São barreiras genéticas
De pai pra filho
Pau que nasce torto, morre torto
E a semente vingou
Fez enlouquecer milhares
Como se já não bastasse o surreal da vida
É claro que o pobre pode vencer
Pelo menos, é essa minha esperança
Eu sou apenas um rapaz latino americano
Sem dinheiro e sem parentes importantes
E isso nunca foi tão verdadeiro
E isso nunca foi tão localizatório
Não é a ira aos ricos
Nem mágoa tão pouco é
É apenas uma dor que machuca
É apenas um gemer auditivo
E o medo de se sofrer sozinho
Que ninguém quer ouvir
Por isso por vezes ressoa surdo
Eu sou eu
Eu sou meus problemas e meus fluídos
Que todos ditam comportamento
E se agora como um doce qualquer,
A indignação existencial parece ir embora
E a coisa mais importante, além da morte e da vida
O torpor das drogas pareceu calar
E de tabela arrancou meu lirismo
Com um corte um pouco acima da raiz
O grito ressoa em cabeças milhares
Espalhadas pelo mundo
Podem nos tirar tudo
As roupas, a vergonha, a dignidade
Só não nos tiram uma ideia
O solo da mente ainda é fértil
E a semente essencial germina em dimensões quaisquer






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